sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Nele Pra Mim - Primeiro Ato

Dia exausto aquele. Antes havia feito as três aulas seguidas de Iniciação Teatral I, me senti meio acanhada (pra variar), eu não conhecia ninguém além do professor naquela sala de teto preto e vários futuros atores, a maioria dos presentes pareciam bem mais jovens que eu... eu não queria falar.
Finalmente chegou a aula da qual o professor me convidou para participar, Laboratório do Ator II. A turma dos novinhos foi embora e então foi chegando os poucos alunos daquele horário, uma eu reconheci, conhecia de vista dos pátios do Henrique Lage, o restante eu não fazia idéia de quem eram... Foi quando ele apareceu.
Havia uma beleza incomum naquele rosto, ele prendia minha atenção. Seu maxilar parecia serrado, deixando o seu semblante bastante tenso. Nossos olhos se encontraram poucas vezes, e nessas poucas vezes senti certa frieza naquele olhar. Ele me intimidou, eu não sentia vontade de falar nada, só de ouvir... ouvir aquela voz dura ler textos que eu mal conseguia entender. Me incomodei com a resposta do meu corpo à sua presença e aos poucos olhares que trocamos.
As semana passavam, nos víamos uma vez por semana, e era sempre a mesma coisa. Trocávamos poucas palavras e quando isso acontecia não era de uma maneira muito direta, tinha sempre o intermédio de alguém.
Ao mesmo tempo que eu queria me aproximar daquele menino de beleza incomum, queria ficar afastada, apenas admirar e tentar descobrir o que, de fato, era ele.
Um dia contracenamos como noivos, nunca havia sentido o meu corpo tão tensionado, mal conseguia descolar os pés do chão, e isso se repetia em todos os ensaios que se sucediam. Até que um dia o professor parou pra prestar atenção e foi dando as dicas... agir como namorados, acariciar um ao outro, troca de olhares, enfim, tudo o que, naquela altura do campeonato, eu queria fazer com ele, mas no palco da vida real.
Eu contava as horas pra chegar logo quarta-feira e olhar para o fundo daqueles olhos que tinham tanto a dizer mas os meus não conseguiam escutar porque o meu coração fazia muito barulho.


No primeiro dia de apresentação eu cheguei atrasada pra apresentar a primeira peça, onde fazíamos clowns, e não me apresentei.
Eu chorei. Tapei o rosto com as mãos, pois não gosto que me vejam chorando, então senti aquele beijo sobre os meus cabelos, e reconheci a voz que dizia "Não fique assim". Foi a primeira vez que meu coração acalmou-se diante daquela voz, daquele toque... diante dele.
O choro cessou e o professor já estava nos apressando para a próxima peça. Senti uma vontade imensa de fazer melhor do que nos ensaios, de ser realmente a noiva daquele rapaz que conseguiu fazer com que meu coração se abrandasse.
Sentamos um ao lado do outro, como nos ensaios, mas parecia tão diferente de antes.
Eu estava nervosa, claro, mas sentir a mão dele junto da minha me trazia certa confiança, pedi para que tirasse o meu óculos, não queria separar minha mão da dele e nem desgrudar a outra da cadeira. Pra tentar puxar assunto perguntei se ele tinha trazido alguém pra assistir a peça, e ele respondeu em meio tom e sem olhar pra mim: "Sim, meu amigo e minha namorada."
...
Meu olhar caiu e nada mais eu falei a ele...
Ah, e supõe-se que minha apresentação não tenha sido como eu queria, nem a que o professor esperava.






Continua...

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